O papel de Alckmin nas eleições 2026 e os 'aplicativos de dopamina'
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🔸 A confirmação de Geraldo Alckmin como candidato a vice na chapa de Lula (PT) marca uma mudança no papel que ele desempenha na campanha de 2026. Se, em 2022, o ex-governador paulista simbolizava a “frente ampla” construída para derrotar Jair Bolsonaro (PL), agora cientistas políticos ouvidos pelo Nexo avaliam que sua presença representa a continuidade de uma aliança já testada durante quatro anos de governo. “A aliança entre Lula e Alckmin deixa de ser uma promessa e se torna um arranjo de governo consolidado. Alckmin passou quatro anos como vice e ministro. Sua permanência na chapa tende a transmitir uma continuidade administrativa e estabilidade de coalizão governista”, afirma Mariana Chaise. Agora, ela destaca que “o que entra em disputa é menos a oposição ao bolsonarismo e mais as entregas efetivas do Executivo”. Já o cientista político Rodrigo Prando avalia que as declarações de Flávio Bolsonaro (PL) sobre as urnas eletrônicas podem recolocar a defesa da democracia no centro da campanha e reforçar a imagem de Geraldo Alckmin como fiador da estabilidade institucional.
🔸 Mais de mil gaúchos seguem fora de casa após os temporais que atingiram o Rio Grande do Sul. Segundo a Defesa Civil estadual, 135 municípios registraram danos, com 779 pessoas desabrigadas, 335 desalojadas e sete feridos. Enquanto rios como o Caí e o Taquari começaram a baixar, cidades iniciaram o levantamento dos prejuízos causados pelas chuvas. O Sul21 destaca que o foco agora se desloca para Porto Alegre, para onde escoa o volume de água das bacias atingidas. Um boletim do Serviço Geológico do Brasil, com dados do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, aponta que o Guaíba pode ultrapassar a cota de inundação de 3 metros até amanhã. Apesar disso, o órgão considera improvável a repetição das enchentes extremas de maio de 2024.
🔸 No Acre, enchentes, secas e queimadas se tornaram o novo normal. Entre 1987 e 2023, o estado registrou 254 eventos climáticos extremos, mas, como mostra O Varadouro, foi a partir de 2010 que esses fenômenos passaram a ocorrer em intervalos cada vez menores, muitas vezes mais de uma vez no mesmo ano. A professora Sonaira Silva, uma das principais pesquisadoras das transformações ambientais na Amazônia Sul Ocidental explica que um novo episódio de El Niño pode agravar a seca, elevar as temperaturas e intensificar as queimadas. “O ano de 2024 foi o exemplo de como nós não estamos preparados. Será que com as queimadas, se este ano acontecer o mesmo nível de fumaça, a gente já sabe o que fazer com as crianças? E com os trabalhadores que passam o dia na rua?”, questiona Sonaira.
🔸 A exploração ilegal de pau-brasil segue alimentando um mercado milionário de arcos para violinos, violas e violoncelos, apesar das restrições impostas para proteger a espécie ameaçada de extinção. Fiscais do Ibama e a Polícia Federal desmontaram um esquema de fraude que usava documentos falsificados para “esquentar” madeira extraída ilegalmente da Mata Atlântica e abastecer fabricantes brasileiros com clientes em todo o mundo. A Agência Pública conta que a origem desse polo industrial está em Guaraná, distrito de Aracruz (ES), onde empresas especializadas em arcos de instrumentos de corda prosperaram graças ao acesso ao pau-brasil. Segundo as investigações das operações Dó Ré Mi e Ibirapitanga, empresários teriam mantido estoques clandestinos, reutilizado créditos florestais e fraudado registros oficiais para dar aparência legal à madeira. Ao todo, a Polícia Federal investigou 32 pessoas e apreendeu mais de 230 mil varetas de pau-brasil, além de milhares de metros cúbicos de madeira.
📮 Outras histórias
“Não existe artesanato sem pensar no território e nas pessoas que constroem essa história”, afirma a designer Celina Hissa. Ela é uma das criadoras da coleção Poti Fios e Linhas, que levou o trabalho de 17 artesãs do Seridó, no Rio Grande do Norte, às passarelas do Ginga Moda RN. A Saiba Mais explica que a coleção foi desenvolvida em parceria entre as crocheteiras da Acari Criativa e da Casa do Artesão do Seridó e a marca Catarina Mina. A proposta foi transformar memórias, paisagens e saberes tradicionais do Seridó em peças de moda contemporânea, como uma forma de ampliar as oportunidades de mercado para quem vive do artesanato. “Esse projeto nos mostrou possibilidades que muitas vezes imaginávamos distantes. Para quem vive no interior, é uma oportunidade de levar nosso trabalho para outro patamar e perceber que ele tem valor e reconhecimento”, diz Leonete Gorgônio, que há seis anos se dedica ao artesanato em crochê.
📌 Investigação
Uma página que exaltava a Polícia Militar do Paraná (PMPR) é investigada pelo Ministério Público do estado por vender, em um grupo privado no Telegram, vídeos de pessoas mortas e de supostas vítimas de tortura praticada por policiais. O perfil “Militar do Paraná”, que tinha 22,9 mil seguidores no Instagram, também publicava conteúdos em colaboração com agentes da ativa. Segundo a Ponte, a assinatura do grupo custava R$ 20 por mês e, segundo o deputado estadual Renato Freitas (PT-PR), que denunciou o perfil, tinha ao menos cem integrantes e gerava cerca de R$ 2 mil mensais. Entre os vídeos comercializados estavam cenas de violência explícita, como um homem obrigado por policiais a deitar sobre uma fogueira e outro forçado a entrar em um rio enquanto gritava frases de exaltação à PMPR. É possível ouvir pessoas rindo ao fundo da cena. O vídeo foi publicado no grupo do Telegram um dia antes de Curitiba ter registrado a temperatura mais baixa deste ano. O perfil no Instagram ainda marcava autoridades, como o coronel reformado da PMPR Hudson Leôncio Teixeira, que é secretário da Segurança Pública paranaense no governo de Ratinho Júnior (PSD).
🍂 Meio ambiente
O projeto da mineradora canadense Belo Sun, que pretende instalar a maior mina de ouro a céu aberto do país na Volta Grande do Xingu (PA), foi precedido por mais de cinco décadas de violência contra famílias indígenas da região. A partir de documentos inéditos, a Sumaúma reconstrói a trajetória de Maria Aparecida Xipaia, a Cida, filha de Inácio Xipaia, cuja família foi expulsa do território após anos de prisões ilegais, torturas, destruição de roças e outras violações atribuídas à atuação da mineradora Oca, antecessora do atual empreendimento. Documentos da Funai apontam que policiais militares atuavam como “milícia particular” da empresa. Apesar de sucessivos pedidos da Funai e do Ministério Público Federal para reconhecer e proteger a comunidade Boa Vista como território indígena, as providências nunca foram adotadas – e o projeto de mineração avançava. Hoje, parte da antiga terra da família está cercada pelas instalações da Belo Sun. Cida vive em uma pequena ilha do Xingu, onde cultiva cacau, mas sonha em voltar ao lugar onde nasceu.
📙 Cultura
Referência cultural e religiosa para a população negra da capital paulista, o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança começou a ser demolido pela Prefeitura de São Paulo nesta semana. O espaço, fundado em 1958 na Casa Verde, zona norte da capital, será desocupado após decisão judicial de reintegração de posse. A gestão de Ricardo Nunes (MDB) pretende construir no local o Parque Municipal Campo de Marte. Segundo a Alma Preta, uma das construções ameaçadas abriga imagens e objetos sagrados de religiões de matriz africana, mantidos por uma ialorixá. Ela pediu mais tempo para retirar os elementos religiosos enterrados no terreno, argumentando que o ritual só poderia ser realizado à meia-noite. A oficial de justiça respondeu que o clube teve 60 dias para desocupar o espaço, prazo encerrado na quarta-feira. A deputada estadual Ediane Maria (PSOL) criticou a condução do processo e afirmou que a prefeitura não dialogou com os frequentadores do clube durante os 60 dias concedidos para a desocupação.
🎧 Podcast
No estado de Indiana, nos Estados Unidos, há uma cidade chamada Brazil. Com menos de 10 mil habitantes, ela foi assim batizada em homenagem, é claro, ao Brasil, depois que seu fundador passou a ler notícias sobre o país nos jornais do século 19. Décadas mais tarde, Brazil recebeu do governo brasileiro uma réplica do Chafariz dos Contos, de Ouro Preto (MG), como símbolo da amizade entre os dois lugares. As jornalistas Flora Thomson-DeVeaux e Paula Scarpin visitam a cidade no primeiro ato do “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo. No segundo, elas viajam até Americana (SP) para investigar a história dos descendentes de confederados que migraram para o Brasil após a Guerra Civil dos Estados Unidos e as controvérsias em torno da bandeira confederada, hoje associada à supremacia branca.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Fazer um pedido de comida que nunca será entregue ou encher um carrinho de compras sem intenção de concluir a compra virou uma tendência entre usuários de aplicativos conhecidos como “aplicativos de dopamina”. Em artigo no The Conversation Brasil, Gary Mortimer, professor da Queensland University of Technology, explica que essas plataformas simulam experiências de consumo para ativar mecanismos de recompensa do cérebro, oferecendo a sensação de antecipação, escolha e satisfação, mas sem qualquer gasto ou entrega real. A prática surgiu na Coreia do Sul e já se espalhou para outros países. Há aplicativos de entrega fictícia, lojas virtuais onde nada é vendido e até simuladores de cigarro. Segundo o autor, ainda não há pesquisas específicas sobre os efeitos dessas plataformas, mas elas podem funcionar como uma porta de entrada para comportamentos mais arriscados, ao estimular mecanismos semelhantes aos da gamificação.



