Os acidentes com entregadores e a suplência ao Senado entre parentes
Uma curadoria do melhor do jornalismo digital, produzido pelas associadas à Ajor. Novos ângulos para assuntos do dia
🔸Entre 2023 e julho de 2026, o Brasil registrou 34.211 acidentes com entregadores de aplicativo – com um pico de 11.579 casos em 2025 –, de acordo com os dados do Ministério da Saúde fornecidos ao Ministério Público do Trabalho (MPT). A Alma Preta ressalta que a maioria das vítimas atuava sobre duas rodas, com 34.004 motociclistas acidentados no período. O aumento dos acidentes de trabalho com entregadores expõe a precariedade e a ausência de direitos regulamentados da categoria, majoritariamente negra. O MPT usará o levantamento para intensificar fiscalizações e a responsabilização jurídica das plataformas. Especialistas indicam que os registros ainda podem ter um alto grau de subnotificação devido à informalidade.
🔸 Após uma operação policial apurar o incentivo ao suicídio de uma adolescente de 13 anos em transmissão ao vivo no Discord, órgãos federais instauraram processos de fiscalização contra a plataforma por suspeitas de violação ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. O Nexo explica o que fez o governo federal voltar a atenção à plataforma e mostra os impactos de uma possível suspensão do serviço. A partir das críticas de que seria cúmplice de crimes ao não oferecer moderação eficiente, o Discord se comprometeu a apresentar um plano de ação para verificação etária. Professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Fabrício Polido afirma que a plataforma tem um ambiente fechado que pode propiciar a disseminação de conteúdos extremistas. “O Discord está estruturado num ambiente altamente privado, basicamente bloqueado no que diz respeito ao monitoramento externo e à ação de autoridades de aplicação da lei. Isso torna mais fácil que agentes maliciosos e criminosos possam atuar sem qualquer dificuldade na plataforma.” No entanto, o pesquisador acredita que a suspensão é desproporcional e não encerraria a atuação criminosa.
🔸 A indicação de cônjuges, filhos e irmãos para vagas de suplência no Senado expõe a persistência do poder familiar na política nacional. Levantamento do Congresso em Foco para as eleições de 2026 identificou pelo menos 15 candidatos que colocaram familiares com vínculos diretos em suas chapas. Entre os casos, está Michelle Bolsonaro (PL-DF), que indicou como seu primeiro suplente o próprio irmão, Diego Torres Dourado (PL-DF). Outro exemplo é o de Helder Barbalho (MDB-PA), que terá como primeiro suplente o pai, o também senador Jader Barbalho (MDB-PA). Embora a legislação eleitoral permita, um projeto de lei complementar, apresentado pelo senador Fabiano Contarato (PT-ES), tenta proibir o registro de cônjuges e parentes até o terceiro grau para a suplência.
🔸 A aprovação relâmpago de leis em Goiás para atrair investimentos de big techs é alvo de críticas por esvaziar salvaguardas sociais e ambientais. A Assembleia Legislativa do estado atropelou o debate público e sancionou marcos regulatórios de inteligência artificial e de exploração de minerais críticos em 48 horas após reuniões do governador Ronaldo Caiado (PSD) com executivos do Google e da Amazon nos Estados Unidos. A Agência Pública revela que a lei de fomento goiana à IA possui brechas que enfraquecem o licenciamento ambiental e a transparência, blindam auditorias e abrem espaço para sistemas de código fechado na administração. O memorando de cooperação para a extração de terras raras em Goiás firmado com o governo estadunidense é considerado inconstitucional por ferir a soberania da União.
📮 Outras histórias
O modelo de parceria público-privada promovido pelo governador Eduardo Leite (PSD) transforma a educação estadual e municipal do Rio Grande do Sul em mercadoria, ditando currículos e avaliações sob a promessa de maior eficiência. É o que mostra análise conduzida por pesquisadores de três universidades gaúchas que mapearam fundações empresariais e consultorias envolvidas na parceria. Segundo o Sul21, o projeto de Leite prevê a concessão de 98 escolas estaduais por 25 anos para serviços de apoio e infraestrutura. “São redes de atores privados que se juntam em torno de um objetivo comum, que é buscar o lucro através da educação. O empresariado descobriu, na educação pública, um filão”, explica a professora Fátima Cóssio, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais, da Universidade Federal de Pelotas. A pesquisadora ressalta ainda que, sob a lógica do empreendedorismo e metas puramente financeiras, a educação pública fica refém de padronizações, redução de salários e precarização de condições de ensino.
📌 Investigação
A alta demanda de gigantes da tecnologia por inteligência artificial e a busca das empresas de energia limpa por lucro impulsionam a expansão dos data centers no Brasil. Em parceria com a Mongabay, o Intercept Brasil revela que 65% dos pedidos de conexão de novos servidores de dados ao Ministério de Minas e Energia até dezembro de 2025 partiram do próprio setor de fontes renováveis, interessado em escoar o excedente de eletricidade. Como consequência, a expansão dessas estruturas podem encarecer as contas de luz e a podem demandar a ativação de usinas termelétricas, em que há queima de combustíveis fósseis. A aliança entre data centers e empresas de energia também acelera conflitos territoriais e afeta a saúde de comunidades quilombolas e indígenas do Nordeste devido ao ruído das turbinas e do desmatamento.
🍂 Meio ambiente
Mesmo onde há demarcação, o avanço acelerado da devastação no entorno de Terras Indígenas (TIs) põe em risco a preservação das florestas. Um estudo conduzido por pesquisadores nacionais e estrangeiros, publicado na revista científica “Nature Sustainability”, mostra que o interior desses territórios, como a TI Vale do Javari, mantém-se preservado, mas sofre uma pressão acumulada de desmatamento e expansão de fronteiras. O Nossa Ciência detalha as contribuições de cientistas da Universidade Federal de Alagoas, que ressaltam a urgência de políticas públicas de monitoramento e de criação de zonas de amortecimento no entorno das TIs.
📙 Cultura
A tensão entre o isolamento como proteção e como cárcere dita o ritmo de “A Última Casa”, novo suspense da Netflix estrelado por Wagner Moura e Greta Lee sob a direção de Louis Leterrier. O Tangerina destaca que a ficção científica precisou de poucos dias depois da estreia para liderar o ranking mundial do streaming. Em resenha na Escotilha, o jornalista Paulo Camargo aponta que, embora o roteiro recorra a conveniências excessivas e evite fraturas emocionais profundas na convivência forçada, as atuações de Moura e Lee dão espessura humana e angústia ao cotidiano alterado. Ele pondera que o filme perde força ao tentar explicar seu grande mistério no final, mas destaca a eficiência da direção em converter os espaços limitados da casa em elementos narrativos.
🎧 Podcast
A recente queda dos índices de desmatamento e queimadas no Brasil reavivou os questionamentos sobre a precisão científica do monitoramento ambiental. No “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, o engenheiro florestal e coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo, explica os bastidores da coleta de dados de uso de terra e água e aponta que as campanhas de desinformação atrasam o progresso da proteção ambiental. Mesmo com a redução de mais de 20% no desmatamento e de quase 60% nos incêndios florestais registrados no país em 2025, o avanço nessa agenda exige enfrentar notícias falsas e consolidar dados científicos mais acessíveis para a sociedade.
✊🏾 Direitos humanos
Diante do silêncio na família e resistência das escolas para conversas sobre sexualidade e gênero, adolescentes de periferias buscam respostas na internet. A Periferia em Movimento conta que redes como TikTok e Instagram servem de entretenimento, mas raramente sanam dúvidas sobre esses temas, e os jovens recorrem ao Google e a ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT e Grok. Para a assistente social Daniela Barbosa, a ausência de conversas em sala de aula é um obstáculo para a formação dos adolescentes: “Falar sobre sexualidade não é incentivar o início da vida sexual. Falar sobre sexualidade é falar sobre o corpo, sobre emoções, sentimentos, limites, respeito, autocuidado, consentimento e desenvolvimento. É falar sobre quem somos, sobre como nos percebemos e sobre como nos relacionamos com o mundo”.



