O 8 de Março pelo país e a sobrecarga da mulher negra periférica
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🔸Em todo o país, manifestações marcaram o domingo, Dia Internacional da Mulher. Em São Paulo, vítimas de violência, familiares e políticos se reuniram na avenida Paulista. “Quem fala sobre quem fica? “Quais são as políticas para quem fica? Precisa tratar esse tema no Congresso”, perguntou a vereadora Ana Carolina Oliveira (Podemos), mãe de Isabella Nardoni, morta aos 5 anos de idade em 2008. Estavam no ato mães de vítimas de feminicídio, como Lúcia Aparecida da Silva, cuja filha, Tainara Souza Santos, de 30 anos, foi atropelada e arrastada pelo ex na Marginal Tietê em novembro. O Metrópoles lembra que, em São Paulo, os feminicídios aumentaram 96,4% em 2025, em comparação com 2021, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
🔸 No Rio de Janeiro, milhares de mulheres marcharam na Praia de Copacabana. A revista Cenarium destaca a leitura de um manifesto com demandas como mais orçamento para políticas de igualdade, o fim da escala 6x1 de trabalho e medidas contra grupos que promovem o ódio às mulheres. Em Belo Horizonte (MG), segundo a BHAZ, a marcha foi organizada pelo Movimento de Mulheres Unificadas e adotou o tema “Basta de Feminicídio e Violência de Gênero: Fora Trump da América Latina e Palestina”. Já em Porto Alegre (RS), mulheres ocuparam o centro da capital com palavras de ordem como “se cuida, seu machista, a América Latina vai ser toda feminista”. O Matinal ressalta que, entre os estados da região Sul, o RS foi o que mais registrou feminicídios entre 2021 e 2025. Em Florianópolis (SC), o Catarinas acompanhou a marcha. O Conquista Repórter mostra como foi o ato em Vitória da Conquista (BA).
🔸 Em tempo: A narrativa mais difundida sobre a origem do 8M é uma fake news histórica. Em vídeo, a Revista AzMina explica que a versão de que a data teria surgido após a morte de 130 operárias em um incêndio em uma fábrica têxtil em Nova York, em 1911, não é verdadeira. A proposta de um dia internacional de luta das mulheres foi apresentada em 1910 pela militante alemã Clara Zetkin, com foco no direito ao voto e em melhores condições de trabalho. O 8 de março se consolidou após uma greve de tecelãs na Rússia em 1917, episódio associado ao início da Revolução Russa. “Desvincular a data da luta operária é um jeito de apagar o nosso protagonismo. Até porque, para o sistema, mulheres que fazem greve são perigosíssimas. Então, no 8 de março, a gente quer o que as operárias de 1900 já reivindicavam: autonomia, salários justos, ambientes sem violência e equidade”, afirma a repórter Malu Lucena.
🔸 Os casos de violência sexual e estupro cresceram 56,6% em um ano em nove estados brasileiros, segundo levantamento da Rede de Observatórios da Segurança, que registrou 961 vítimas em 2025. O estudo combina registros policiais com o monitoramento diário de casos de violência noticiados na imprensa, depois cruzados e consolidados em um banco de dados. Segundo o documento, mais da metade das vítimas foram crianças e adolescentes de até 17 anos. O Colabora detalha que existem diferenças regionais marcantes: o Amazonas lidera os registros de violência sexual, com 353 vítimas – das quais 78,4% tinham até 17 anos –; já o Pará registrou aumento de 167,4% nesses crimes. No total de mulheres vítimas de violência, os dois estados ficam atrás apenas de São Paulo, que teve 1.177 casos no ano passado.
🔸 Uma em cada dez vítimas de feminicídio no Brasil em 2025 tinha medida protetiva concedida pela Justiça quando foi morta. Apesar de o mecanismo ser falho e precisar de aprimoramentos, ele ainda é essencial para a proteção da mulher. É o que afirmam especialistas ouvidas pela Agência Pública. “O que eu diria para uma mulher que está em dúvida se pede medida protetiva por medo de não funcionar? Eu diria: acredite na medida protetiva. Ela salva vidas”, afirma Cida Gonçalves, que foi ministra das Mulheres no terceiro mandato de Lula e participou da formulação da Lei Maria da Penha e do Ligue 180, que recebe denúncias de violência contra a mulher. Para Juliana Ribeiro Brandão, pesquisadora sênior do FBSP, a violência contra a mulher não é resolvida apenas com medidas punitivas: “Uma medida protetiva funciona como uma redução de danos, ela diminui as chances de acontecer uma violência fatal. Mas não mexe na origem dessa violência”.
🔸 A propósito: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a lei que altera o Código Penal para reforçar a presunção absoluta de vulnerabilidade no crime de estupro de vulnerável. O Bahia Notícias informa que a norma estabelece que essa condição não pode ser relativizada por fatores como consentimento, experiência sexual anterior, relacionamento com o agressor ou gravidez decorrente da violência. “Com essa mudança em nosso Código Penal, agora não há mais brechas para relativizações (...). Mais uma medida importante para fechar o cerco a quem comete esse crime brutal. Em pleno século 21, não podemos mais aceitar esse tipo de violência contra nossas meninas”, escreveu o presidente nas redes sociais.
📮 Outras histórias
A conquista do voto feminino completou 94 anos no final de fevereiro – e a alagoana Almerinda Farias Gama (1899-1999) teve papel central nessa luta. Mulher negra, ela foi advogada, jornalista, sindicalista e um dos principais nomes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 1922, no Rio de Janeiro, pela sufragista Bertha Lutz. A Revista Afirmativa narra a trajetória de Almerinda e conta como ela atuou como articuladora política, porta-voz do movimento e responsável por levar o debate feminista à imprensa. “A história das mulheres já é negligenciada e, sendo ela uma mulher negra, essa exclusão se aprofunda. Apesar de sua intensa e longeva atuação política, Almerinda morreu com quase cem anos sem o devido reconhecimento”, afirma Cibele Tenório, jornalista e autora do livro “Almerinda Gama: A Sufragista Negra”.
📌 Investigação
A violência doméstica tem forte impacto na saúde de mulheres que estão no climatério, transição da fase reprodutiva para a não reprodutiva. Os episódios de agressão física, sexual ou psicológica por parceiros íntimos estão relacionados a doenças ginecológicas, disfunções sexuais, transtornos psicológicos e até comorbidades crônicas, segundo estudo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). A Gênero e Número esmiúça a relação entre violência de gênero e saúde das mulheres. Imilda Ferreira Lima, 59 anos, sofreu décadas de controle e perseguição de um parceiro. Como consequência, aos 30 anos, tinha hemorragias e dores. Aos 32, ela já vivia o climatério de forma precoce. “Os médicos foram claros comigo: tudo isso tem a ver com o estresse que eu passei [em um relacionamento abusivo]. A violência psicológica vai minando sua força, sua resistência, vai matando aos poucos, até que seu corpo adoece de verdade”, conta.
🍂 Meio ambiente
“A resiliência que a Caatinga guarda em si, eu vejo muito a mulher nisso. Com um pingo de água, ela floresce; com um pingo de direito, de voz que você dá a uma mulher, você vê o tanto de fruto que ela dá.” A advogada cearense Karine Montenegro é cofundadora do Instituto Pró-Silvestre, que atua na proteção da fauna silvestre do Ceará. Em entrevista à Eco Nordeste, ela revisita sua trajetória e sua paixão pela Caatinga, além explicar como a organização preencheu uma lacuna na conservação cearense. “Nunca nenhum órgão teve uma célula específica de animal silvestre no Ceará. Tem uma coisa global, meio ambiente envolve tudo, com o Ibama e a Sema. Mas uma célula exclusiva de proteção à fauna silvestre, nunca teve.” Atualmente, o Instituto Pró-Silvestre já amparou mais de 5 mil animais no estado.
📙 Cultura
“Eu continuo cantando, para a gente acreditar, mas com muito pé no chão, com muita consciência. Não podemos perder a esperança na vida, o olhar de beleza para a vida, mas também não podemos nos isentar de estar a par das lutas”, afirma Drik Barbosa, uma das principais referências do rap feminino no Brasil. Ela começou a escrever suas letras aos 14 anos, e hoje, aos 34, acredita que a música a ajudou a trilhar o caminho do amor próprio. Ao Nós, Mulheres da Periferia a artista fala sobre a importância de cantar suas subjetividades e não permitir ser desumanizada pelo mercado musical. Drik também conta sobre a experiência do Rimas & Melodias, grupo musical de hip-hop e soul criado em 2016, composto por ela, Alt Niss, Karol de Souza, Mayra Maldjian, Stefanie, Tássia Reis e Tatiana Bispo. “Subir no palco com sete mulheres, cada uma com a sua identidade, com a sua voz, com a sua forma de ver o mundo. Isso inspirou muitas mulheres.”
🎧 Podcast
Com o maior porto e a maior favela de palafitas da América Latina, Santos (SP) é um exemplo da desigualdade social brasileira. Assistente social e escritora, Thais Helena é moradora do Dique da Vila Gilda, onde a maioria da população, assim como ela, é negra. Ao “Lendárias & Portuárias”, produção do Juicy Santos, ela lembra que o Porto de Santos foi construído sobretudo por pessoas negras, que também foram sistematicamente empurradas para áreas alagadiças e sem acesso à riqueza gerada por esse setor. O episódio explora ainda como o racismo estrutural se manifesta na política habitacional de cidades portuárias.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Mulheres das periferias sustentam duplas e triplas jornadas de trabalho, entre funções fixas, bicos e cuidados domésticos. Mãe solo de duas adolescentes, a pedagoga Vanessa Santos de Oliveira, por exemplo, soma as 40 horas de trabalho formal a 12 horas dedicadas à renda extra, além do trabalho não remunerado de cuidado. A Agência Mural mostra a realidade de mulheres periféricas – em maioria, negras – que fica invisível em pesquisas sobre produtividade e emprego no país. “Não podemos negligenciar o trabalho doméstico e a economia do bico, que é muito comum no Brasil. Não contar essas horas [de ocupação] e dizer que as mulheres trabalham menos é injusto. É preciso levar em conta questões de gênero e raça, que são características estruturantes do nosso mercado de trabalho”, afirma Mônica Gurjão, doutora em psicologia social do trabalho.




